As mãos também falam

Assim como todo bom italiano, Demétrio “Mino” Carta também fala com as mãos. Ele as utiliza para completar um raciocínio, emendar uma frase ou articular ideias – com a maior naturalidade do mundo. Suas mãos, entretanto, têm uma função mais importante do que apenas gesticular: elas escrevem. Conhecido por possuir um dos textos mais elegantes do jornalismo brasileiro, Mino é parte importante da história da nossa imprensa. Afinal, suas mãos também ajudaram a fundar revistas que marcaram época, como Veja, Isto É, Quatro Rodas, e mais recentemente, Carta Capital, do qual é diretor de redação. Mais do que isso, ele é um dos poucos jornalistas amplamente respeitado por jornalistas e também amplamente ignorado por parte da categoria. Sua postura crítica em relação à imprensa do País o torna uma figura ímpar em um meio cada vez mais acomodado e alinhado aos grandes meios de comunicação. Talvez seja por isso que no alto de seus 77 anos, Mino Carta continue tão ativo e participativo na fiscalização do poder – segundo ele, um dos três fundamentos para o bom jornalismo.

Essa entrevista foi concedida no dia 16 de março, cerca de 30 minutos antes do início do “Encontros com o Professor”, onde Mino seria entrevistado por Ruy Carlos Ostermann. Mesmo com pouco tempo (consegui roubar uns minutos a mais do Ostermann), ele respondeu as questões e falou sobre jornalismo, a mídia brasileira e também sobre escrever.  Fiz a entrevista pelo veículo que trabalho, o Jornal do Comercio, mas como não pude publicar no conhecido formato ping pong, agora estou também publicando no meu novo blog. Espero que gostem.

Mino Carta esteve em Porto Alegre em março Credito da Foto: Encontros com o professor

O senhor começou cedo no jornalismo…Como avalia a questão da queda da obrigatoriedade para o diploma de jornalista? Jornalismo se aprende mesmo na prática?

Eu sou contra o diploma para o jornalista. Jornalismo se aprende nas redações, e além de tudo essa questão do diploma tem um pecado original, porque é uma invenção da ditadura. A ditadura tinha preocupação com a moçada que ficava nos bares e nas calçadas  militando idéias, para eles, perigosas. E então eles inventaram essa história da obrigatoriedade do curso de comunicação para que o diploma tivesse efetivamente força para chamar os jovens, os tirarem da calçada – ou qualquer outro lugar onde eles pudessem militar ideias terríveis! Agora, eu então, a princípio, sou contrário a ideia do diploma, em primeiro lugar, porque é uma invenção da ditadura,  segundo lugar porque é uma ideia, a meu ver, corporativista, fascista. E em terceiro lugar, pois acredito que jornalismo não é uma profissão tão difícil quanto, por exemplo, engenharia ou medicina. Agora jornalismo só se aprende nas redações e facilmente, desde que você tenha um talento apropriado para isso.

Ocorre que no Brasil essa ideia do diploma radicou-se. Então também acho que suprimir o diploma sem que haja um debate inteligente, desapaixonado, isento e parcial em relação ao assunto está errado. Tem-se, então, que discutir isso com inteligência para não cometer um desatino ou uma prepotência. Embora contrário ao diploma, eu acho que a questão exige um debate inteligente.

O que mudou no jornalismo brasileiro nos últimos 30 anos? Como era antes do regime, durante a época ditatorial e atualmente?

O jornalismo brasileiro decaiu muito. Em tempos anteriores ao golpe era um jornalismo mais trabalhado, de atribuir um valor literário texto. E durante a ditadura houve também momentos muito bons do jornalismo brasileiro. Principalmente em certos níveis na imprensa alternativa, por exemplo, ou até  na revista Veja. Esses veículos conseguiram representar uma forma de resistência. Lembre-se que jornais como o Globo, a Folha, ou o Jornal do Brasil nunca foram censurados. Mas quem foi censurado bravamente mostrou a sua qualidade, o seu inconformismo, a sua indignação – de uma forma ou de outra, às vezes nas entrelinhas. Às vezes não conseguiu passar o recado porque a censura impediu. Sobretudo foi um momento interessante do jornalismo brasileiro, porque são nessas ocasiões em que você vive pressionado que é possível demonstrar o seu caráter, ou pelo menos você tem a oportunidade de mostrá-lo.

Depois a coisa degringolou, até porque houve algumas apostas, a meu ver, profundamente hipócritas e que acabaram conquistando o próprio autor delas – os jornalistas. Por exemplo, a convicção de que o público é composto por idiotas. Estão abaixando o nível do raciocínio, aviltando a língua como se houvesse uma aposta na ignorância alheia. E os próprios jornalistas acabaram mergulhando nessas águas turvas e se acostumando com a ideia. Eles próprios se tornaram ignorantes. Eu acho que esse é o tom geral da mídia nativa, sem contar que ela está sempre de um lado só, do poder.

Mino não costuma ler os jornais brasileiros

Tenho um professor que diz que o jornalista deve trabalhar permanentemente em comparação, isto é,é preciso observar todos os veículos e compará-los para criar uma maior análise crítica…O senhor costuma ler os  jornais ou revistas brasileiros?

Não, dou uma olhada oblíqua. Os editoriais dos jornais brasileiros me divertem muito, porque são peças de humorismo realmente imbatíveis. De um modo geral a imprensa brasileira é muito ruim. Eu, se fosse o seu professor, diria o seguinte: pegue bons jornais de fora, da Europa sobretudo, e os compare. Você vai ficar abismado com a fraqueza da nossa imprensa. Daí estamos falamos sobre a mídia impressa mesmo, porque quando eu digo imprensa, eu me refiro ao papel impresso. Nossa mídia impressa é medíocre e de uma fraqueza absoluta.

Não costuma ler a Veja ou a Isto É, então?

Não, Deus me livre. Aí é que não mesmo. Eu leio alguns editoriais dos jornais diários, porque me divertem, como disse anteriormente. Eu substituí a leitura de revistas humorísticas pelos editoriais dos grandes jornais brasileiros. Às vezes dou algumas olhadas obliquas em algumas revistas e sempre tem alguém na redação (da Carta Capital) que me chama atenção para alguma matéria. E se realmente me interessar eu vou lá e leio. Mas em geral é desolador o nível. Títulos, subtítulos, os textos, é tudo de uma mediocridade lamentável.

A Carta Capital costuma se posicionar bastante nos seus editoriais, enquanto a grande maioria dos outros veículos brasileiros não…por que não fazemos isso aqui?

Aqui não se tem o costume, porque a maioria dos jornalistas é de uma hipocrisia sublime, já que eles estão de um lado só. O teu professor se engana coitadinho, porque ele te diz para ler os jornais para formar uma opinião, mas eles dizem a mesma coisa. Mudam as palavras talvez, mas a essência é a mesma. Então não dá para formar uma opinião lendo os jornais, porque todos eles conduzem para um lado só. Toda a mídia nativa está alinhada de um lado só. Por isso que enquanto eles alegam uma isenção, uma imparcialidade, uma eqüidistância que são completamente inexistentes – na prática é pura hipocrisia – nós achamos que devemos nos posicionar. Em certas ocasiões, é claro.

Essa é uma prática corriqueira, por exemplo, é o que acontece nos Estados Unidos, com o New York Times. Eles dizem: “Nós somos pró obama”. Eles escrevem: “Obama é nosso candidato”. A partir de hoje o nosso querido leitor vai ler artigos e textos e editoriais que vão mostrar que nós somos a favor da candidatura do Obama. É assim que se faz nos países civilizados. Aqui não, aqui é essa hipocrisia desenfrada de um bando de salteadores.

Salteadores seriam as “famílias”, que comandam boa parte dos meios de comunicação?

São o quê? Cinco famílias ou quatro famílias. Essa é a mídia nativa, todos estão de acordo, porque eles querem conservar o bem bom deles. Estão erguendo paredes nas casas deles para garantir a tranqüilidade interna. Têm bandos de seguranças armados até os dentes, cachorros ferocíssimos. Cercas eletrificadas. Realmente é um pessoal que sabe resguardar a sua intimidade, a sua privacidade. Se tá cada vez mais difícil, mais arriscado por causa da violência, eles mandam blindar o carro. Dão um jeito. Ou então viajam de helicóptero, o que é uma grande solução. Mandam os filhos para a escola de helicóptero. É o ideal, né? São Paulo já tem a segunda frota de helicóptero do mundo, depois de Nova York..

O que é ser esquerda e direita hoje?

No meu entendimento é sempre a mesma coisa. É a preocupação com a igualdade que mostra a diferença. Ou melhor, é quando você entra na discussão dos meios para conseguir essa igualdade que você percebe a diferença. Mas a essência da questão é a preocupação com a igualdade. Então a igualdade é o corolário indispensável. A diferença básica entre ser de esquerda e não ser de esquerda é essa: quem quer que as coisas fiquem como estão, esse é direita. Quem diz que a igualdade é o objetivo, esse é esquerda. A partir dessa escolha, vem certas diferenças, que dizem respeito a maneira de realizar isso.

O senhor escreveu livros de ficção, o que motivou a escrevê-los?

O primeiro nasceu da leitura de outro livro que dizia relatar a verdade e que estranhamente eu descobri que, na verdade, tratava-se de um livro de ficção. Só que era do lado da ficção do absurdo, aquela ficção na linha de Kafka. Era um livro intitulado Notícias do Planalto que sustentava a tese de que Collor foi eleito pelos jornalistas, quando até uma pedra, não, vamos dizer mais, o granito do Pão de Açúcar sabe perfeitamente que o Collor foi eleito pelos patrões da mídia. Os jornalistas executam passivamente, pontualmente, sofregamente as vontades de seus patrões. Eu dei uma olhada rápida nesse livro, e entendi o significado de  imediato.

Para o livro Notícias do Planalto, o autor me entrevistou, ele se chama Mario Sergio Conti. “Conde” das Letras. Ele me ligou e disse que queria uma entrevista e então foi até a minha casa e me entrevistou durante quatro horas à fio. Do que eu disse à ele, ele aproveitou algumas coisas e, no mais, deu a versão do patrão dele à meu respeito.

Mais tarde me defendi, apresentando a versão de outra maneira, como eu havia relatado à ele. E também disse que o patrão dele era um grande imbecil, e uma pessoa absurdamente sem caráter, sem ética. Nunca fui desmentido. Nunca fui processado. Nunca aconteceu nada, porque eu conto a verdade factual, aquela que eu prezo.

Então como uma forma de resposta, escrevi o meu primeiro livro muito rapidamente, porque também era uma forma de deixar a minha consciência limpa. O segundo é uma especie de continuação. Não que eu esperasse convencer as pessoas. Mesmo porque quem lê no Brasil tende a achar que esse senhor, o Conde das Letras, é um grande jornalista. Eu acho que ele não é, mas eles acham.

Foi mais fácil escrever o texto de ficção do que o jornalístico? Você se considera também um escritor?

Eu prefiro escrever ficção porque eu acho que é muito mais próximo da realidade do que a própria. A realidade é muito menos convincente do que a ficção. Não me considero um escritor, considero-me um jornalista que escreveu dois livros.

Mino, para finalizar e não tomar mais o seu tempo, é uma pergunta clichê, mas quais, a seu ver, são os princípios básicos para se exercer um bom jornalismo?

Isso é um convite a valsa para mim. Bom, eu repito constantemente essas besteiras e, portanto, não me custa repeti-las mais uma vez. Primeiro é que você tem que ter uma fidelidade canina a verdade factual. A qual se distingue das mil verdades que cada um carrega na sua cabeça, achando que é a verdade. E não são. São apenas as opiniões de cada um, ou exprimem o sentimento, as esperanças, as expectativas, os desalentos, o que for. A verdade factual é que esse é um copo, esse é um gravador. Eu me chamo Mino, essa é a verdade factual.

O segundo é o exercício do espírito crítico, e o espírito crítico é aquilo que te diz “estou vivo”. Perceba a diferença, é um pouco mais do que Descartes, do que “Penso, logo existo”. É se manifestar por meio do espírito crítico e por tanto ter consciência de que está vivo. Colocar-se diante das questões. Colocar-se diante das situações, e se manifestar em conformidade com aquilo que se está vendo – isto é o espírito crítico.

E o terceiro ponto, claro, claríssimo é a fiscalização do poder, o que você precisa exercer com coragem sempre, evidente. Às vezes com muita coragem e levando em conta que o poder se manifesta de mil maneiras, não é só na Política. Também na economia, em qualquer lugar do mundo, em qualquer situação

Uma garoa, uma noite de rock

Stve Tyler de volta à ativa

Com um pequeno atraso de cinco minutos, a banda Aerosmith estreou na última quinta feira em Porto Alegre no palco montado no estacionamento da FIERGS. Assim como o restante da turnê na América do Sul, eles iniciaram o show com a música Love in an elevator do álbum Pump, do final da década de oitenta. Um Steve Tyler animado, vestindo um chapeu escuro e um grande casaco branco brilhante entrava em cena. Bastou o famoso frontman surgir para que o público começasse a gritar e a cantar junto. Vale lembrar que o vocalista sofreu um acidente no final do ano passado durante um espetáculo e ficou fora dos palcos por um breve período. Steve teria dito que desejava dar um tempo com a banda e isso fez seus colegas anunciarem que estavam atrás de outro vocalista. No final, Tyler voltou atrás na decisão e uma nova turnê mundial foi noticiada. A curiosidade era grande para ver a performance do cantor e a relação dos integrantes.

E ontem, debaixo da garoa – por ora fina, por ora grossa – a resposta para essa dúvida pode ser apreciada no palco. As expressões divertidas e as danças malucas de Tyler não deixavam dúvida de que sim, o Aerosmith ainda está vivo e continua bom. A impressão é que a banda estava se divertindo no palco e é exatamente isso o que eles precisam no momento. Aliás, a ordem do set list foi pensada dessa forma também, por momentos. Houve o grande bloco dos hits, onde era visível a empolgação do público com as músicas como Pink, Dream On, Crayz e Crying. Logo após um pequeno intervalo e um solo de bateria ótimo de Joey Kramer – que inclusive tocou sem as baquetas, apenas com as mãos e a cabeça – foi executada a balada mais conhecia e esperada pelos fãs: I don’t wanna miss a thing também trilha indicada ao Oscar do filme Armmagedon.

Essa canção fechou o bloco das baladas e dos hits do Aerosmith. Depois disso as músicas mais antigas tomaram conta do show. Fato que talvez tenha desanimado o público mais jovem que só esperava os hits. Entretanto, apresentar músicas como Lord of the Tights da década de setenta, época em que Tyler ainda não soltava suas notas agudas e rasgadas, mostra personalidade da banda e também faz jus à sua história. Vai que alguém que não conhece a sua produção dos anos setenta goste dessa canção e corra atrás de mais?  Houve espaço para dois covers também Baby Please Don’t Go de Big Joe Williams e Stop Messin’ Around de Fleetwood Mac cantada pelo guitarrista solo Joe Perry – que lembrou o mestre do folk rock Bob Dylan no tom da voz.

É a primera vez que a banda toca em Porto Alegre

Foram tocadas vinte músicas em um show que durou duas horas e que serviu para mostrar que o Aerosmith continua mais vivo do que nunca e, mais do que isso, capazes divertir a platéia e ainda se divertirem em cima do palco. Talvez a escolha em separar os grandes hits de músicas mais desconhecidas e os covers de blues tenha sido um equívoco, mas não foi o suficiente para manchar a apresentação perante o público. É mais um dos grandes shows internacionais que a cidade recebe no ano.

Editorial

Atravessados.

O dicionário Priberam da Língua Portuguresa confere alguns significados ao termo:

1 -Vesgo

2 – De maus instintos; pouco leal.

3 – Desinquieto, travesso.

4 – Proveniente de diversas raças, mestiço.

Utilizei o termo atravessados em um poema uma vez e fiquei com ele na minha cabeça, pulsando. Gostei da palavra, do som, do modo como passa uma imagem de travessia, e, ao mesmo tempo, de exclusão, de travesso. E é esse o espírito que desejo buscar nesse blog.

O Atravessados nasce como uma passagem dentro do Jornalismo Cultural para mim. Quero o melhor dos espíritos nessa nova empreitada, na qual vou me dedicar à reflexão tão necessária e tão ausente nos periódicos diários do jornalismo cultural.

Então procuro aqui também fugir desse jornalismo de dia da semana, como diria Guimarães Rosa. Desejo o jornalismo  desinquieto e travesso mesmo. Aquele que vai atrás e que traz questões para incomodar os outros. E também atravessado no sentido de mestiço, misturado para dar assim mais variedade aos diversos temas.

Um jornalismo avesso ao convencional

Aqui terá espaço para se pensar textos, filmes, livros, música, games e também entrevistas e materiais dentro da cultura. Quero também levar o meu leitor a refletir e a discutir comigo.

De pouco leal e de maus instintos esse atravessado não tem nenhum pouco. Mas é preciso conhecer essas má qualidade para superá-las.

Todos são bem-vindos.

Travessia.